A verdade nua e crua

05/05/2008

Recebi de um cliente um arquivo de conhecido palestrante sobre a “pujança” da economia brasileira. Nos slides, havia dados (sem que a fonte fosse citada) sobre um Brasil grande, rico e próspero. O maior consumidor mundial deste ou daquele produto, o segundo nisto e naquilo etc.



Recebi de um cliente um arquivo de conhecido palestrante sobre a “pujança” da economia brasileira. Nos slides, havia dados (sem que a fonte fosse citada) sobre um Brasil grande, rico e próspero. O maior consumidor mundial deste ou daquele produto, o segundo nisto e naquilo etc.

O autor concluiu seus slides dizendo que, embora muitos fossem pessimistas, ele estava absolutamente otimista em relação ao futuro do país.

Lembrei-me de recente visita que fiz à cidade de Colônia, na Alemanha.
Tem 1 milhão de habitantes contra 1,5 milhões de POA.
Tem PIB de 39,5 bilhões de euros contra aproximadamente 5 bilhões de euros de POA.

Que diferença de riqueza! Colônia tem 8 vezes o PIB de Porto Alegre. Como recuperar esta diferença? Como recuperar todas as diferenças entre Brasil e Alemanha?

O primeiro passo para superar diferenças é reconhecê-las. Somente encarando a verdade nua e crua uma sociedade pode medir o tamanho do desafio que tem pela frente e formular um plano de ação consistente com o tamanho do problema. Reconhecer a enorme diferença que separa o Brasil dos países mais ricos é a primeira etapa no processo de recuperação. Certamente o primeiro passo não é um ufanismo barato e recheado de bravatas apoiadas por dados duvidosos, como é o caso dos slides do palestrante.

Resolvi escrever sobre este assunto porque, muitas vezes, executivos de boas empresas não reconhecem a enorme diferença que separa suas organizações de empresas vencedoras. Destacam suas pequenas vitórias e fecham os olhos para as diferenças notáveis entre eles e os grandes. Esta atitude, um tipo de orgulho de terceiro mundo, atrasa a evolução de países e de empresas.

Em algumas universidades americanas, os alunos estudam o chamado “paradoxo Stockdale”. Stockdale foi um general americano, aprisionado com aproximadamente 30 homens durante a guerra do Vietnã. Eles ficaram quase 3 anos em poder dos vietnamitas e conseguiram sua liberdade. Nenhum soldado ficou desesperado e tentou o suicídio. Tristes, porém confiantes, esperaram com dignidade o seu destino. Stockdale, como líder dos prisioneiros, participava de todas as negociações que envolveram a liberdade dos presos. Quando terminavam as reuniões, Stockdale voltava para seu cativeiro e tinha uma atitude aparentemente paradoxal: comunicava para sua equipe que eles não precisariam alimentar esperanças de voltar para casa neste Natal, mas que eles venceriam e sairiam todos juntos, sãos e salvos, da prisão no médio prazo. Esperança e a verdade nua e crua eram comunicadas simultaneamente. Ninguém alimentou falsas esperanças, mas ninguém jamais teve dúvidas sobre a vitória final. E assim aconteceu.

Stockdale foi aclamado pelos americanos como um grande líder por ter vivido o paradoxo que muitos executivos deveriam aprender a viver em suas empresas: enfrente a verdade nua e crua, não importando quão dura ela possa ser, mas não perca a confiança e a certeza da vitória jamais. Use a dureza dos fatos para revitalizar suas forças. Bravatas e falsas promessas somente enfraquecem equipes.

Por isto, Stockdale é estudado em cursos de gestão. Seu exemplo transcende o mundo militar. É um exemplo do paradoxo com que todo líder deve saber lidar. E é o primeiro passo para a vitória. Portanto, dizem as escolas americanas de gestão, gaste 15 minutos falando das coisas boas de sua empresa e gaste 2 horas falando sobre os fatos retorcidos e terríveis que podem derrotar sua organização.

Paulo Ricardo Mubarack