Conversa de churrascaria

31/03/2012

Grandes projetos podem iniciar em uma conversa de boteco ou de churrascaria. Assim foram pensadas a HP e a Apple. Mas eu falei “podem iniciar” e não afirmei que a conversa seja o suficiente. Toda grande ideia ou uma simples solução para um problema mediano em uma empresa pode nascer em qualquer lugar, mas deve ser plenamente detalhada em um plano de ação, por escrito, no papel. Quando a grande ideia vai para o papel, exige determinados detalhes que mostram a situação real e a viabilidade ou não para continuar. O plano de ação faz “as coisas ficarem sérias”.

Fui jantar um dia qualquer em S. Paulo com um amigo. Já trabalhamos juntos, ele já foi meu cliente e nos conhecemos há mais de dez anos. A carne estava ótima e o vinho melhor ainda. Lá pelas tantas, ele me disse que gostaria de trabalhar comigo e falou durante trinta minutos como poderia ajudar minha consultoria.
Respeitei seu entusiasmo e o apreço pelo meu trabalho e, no final da conversa, eu disse: “Ok, coloque tudo no papel no formato de um plano de ação, faça as contas, veja o tipo de contrato que gostaria de fazer comigo, contrate um advogado para analisar a minuta do contrato antes de passá-la para mim e para meu advogado e analise com profundidade alguns sacrifícios pessoais que terá de fazer em uma empresa como a minha (viagens, horários, estudo etc.). Escreva tudo isto, pese prós e contras e faça, na forma de um plano de ação, uma proposta. Com base no papel, nas contas financeiras e nos termos do contrato, poderemos voltar a discutir”.

Por que pedi o papel? Para que a conversa não passe de uma “conversa de churrascaria”, onde a noite perfeita, a carne excelente e o vinho não nos conduzam a uma aventura trágica para todos. A essência: o plano de ação, escrito, detalhado e com as contas, é que torna uma conversa séria e separa o amadorismo da churrascaria do profissionalismo da escrita.

Ter um plano de ação detalhado demonstra respeito pelo caixa e pelos destinos de pessoas e de empresas.
A diretora de outro cliente me disse em uma auditoria: “você deseja o papel ou deseja que eu faça?”, em uma clara alusão à burocracia que ela acha ser um plano de ação escrito. Eu respondi que o OU é medíocre e que eu não preciso escolher: eu quero o plano no papel E quero as ações executadas na prática. Só a prática pode ser anárquica, confusa e perdulária. O plano de ação no papel, no formato 5 W – 2 H, racionaliza o pensamento. Nosso cérebro é tão pródigo que frequentemente nos prega peças, fazendo-nos perder o foco, “viajar” e fazer planos tão “consistentes” quanto a fumaça. Não é à toa que muitas empresas enfrentam crises violentas por investimentos mal feitos. Já vi muitas pessoas boas e honestas ficarem paralisadas na frente do formulário de um plano de ação. Por quê? Porque quando se fala e quando se pensa sem escrever não se exige a profundidade de conhecimento e de detalhes que colocar no papel exige. Até o nível da conversa, todos os executivos e gestores são muito parecidos. O problema começa a aparecer quando se pede que alguém escreva. Aí as coisas ficam complicadas. O “como (HOW)” aterroriza, porque ali deve ser escrita, com prazos, custos, tecnologia e método, a solução proposta. Além disto, quem escreve compromete-se muito mais do quem apenas fala. Se o papel não fosse importante, todos os contratos seriam apenas verbais!

A orientação é: em qualquer reunião, em qualquer momento da vida da empresa, peça um plano de ação. O que não termina em um detalhado plano de ação transformar-se-á rapidamente em uma dor de cabeça para você e para sua empresa.