Duzentos caras já me disseram isto!

20/05/2011

Por que temos a dificuldade atávica para dizer um simples “Não sei”? Ao contrário do que muitos subdesenvolvidos pensam, um “não sei” dito de forma clara traz respeito e credibilidade para seu autor. Não saber não desmerece ninguém, mentir ou adotar postura de falso sabichão, sim. Mentir mostra uma falha importante no caráter. Não saber e afirmar que não sabe mostra apenas uma necessidade de treinamento, nada mais. Por que temer o “não sei”?

Visitei uma empresa em Minas Gerais. Minha função era entrevistar alguns candidatos para o setor de engenharia de uma indústria de máquinas. Um dos requisitos desejáveis: conhecer padronização e sistemas de garantia da qualidade certificados pela ISO 9001. Ao conversar com um dos candidatos, perguntei, no final da reunião, se ele conhecia a ISO ou tais sistemas, embora eu já tivesse identificado que ele não sabia nada sobre o assunto. O jovem engenheiro me disse o que “duzentos” outros caras já disseram em situações diferentes e para perguntas similares, do tipo “Você já conhece isto ou aquilo?”: “Conheço, sim. Na outra empresa onde trabalhava, aprendi este assunto” ou “Sim, já lidei com esta tecnologia”. Em todas as “duzentas” situações, todos sabiam nada ou quase nada sobre o assunto o qual diziam “conhecer”.

Evidentemente, se for um candidato a emprego, logo é eliminado da minha lista. Se for um gerente ou qualquer outro tipo de profissional, perde o meu respeito. Aliás, este costume de mentir e de afirmar que se sabe quando não se sabe, é muito característico de nós, brasileiros. Afirmamos, sem o menor pudor, que dominamos esta ou aquela tecnologia ou que somos “fluentes” em inglês ou espanhol quando, na prática, pouco ou nada sabemos.

Por que temos esta dificuldade atávica para dizer um simples “Não sei”? Ao contrário do que muitos subdesenvolvidos pensam, um “não sei” dito de forma clara traz respeito e credibilidade para seu autor. Não saber não desmerece ninguém, mentir ou adotar postura de falso sabichão, sim. Mentir mostra uma falha importante no caráter. Não saber e afirmar que não sabe mostra apenas uma necessidade de treinamento, nada mais. Por que temer o “não sei”?

As pessoas mais inteligentes que conheci até hoje são humildes, afirmam claramente que não sabem quando realmente não sabem e conquistam a consideração e a confiança de todos. Falam menos do que os sabichões, são mais ouvintes do que falantes e perguntam muito mais do que respondem.

Raramente fazem afirmações definitivas e preferem a troca de ideias e o aprendizado com os demais do que a imposição das suas maneiras de ver o mundo. Prezam o valor da incerteza e desprezam “aquela velha opinião formada sobre tudo”. Têm curiosidade científica e espírito de aprendizes. Precisamos, portanto, ter muito cuidado em nossas empresas com os sabichões de plantão. Certa vez, um deles afirmou em uma reunião: “todos clientes estão reclamando do dimensional de nossos produtos”. Quando perguntei sobre quais dados repousava sua afirmação (que era grave e poderia levar a direção da empresa a tomar medidas e assumir custos desnecessários), ele desmoronou. Insisti pedindo FATOS E DADOS. Qual o índice de devolução dos produtos por tal defeito, qual o número de reclamações dos clientes, quem reclamou, quando reclamou, quem ouviu e relatou a reclamação, qual o indicador interno de rejeição por este defeito, qual a perda de vendas que o defeito originou, qual pesquisa foi feita etc. foram perguntas para as quais ele não possuía a menor evidência. No auge do desespero, ele disse: “Mubarack, baseei esta afirmação no meu feeling e na minha percepção”. Ridículo, não é mesmo?

Sei que alguém pode estar pensando que estou desvalorizando a intuição. Afinal de contas, sempre ouvimos falar que grandes empresários se valem muito mais da intuição do que da razão etc. Obviamente, não estou diminuindo a importância da intuição. Tal habilidade existe e eu mesmo faço uso dela com frequência nos meus negócios. A propósito, considero-a tão importante que estudei o que é INTUIÇÃO e de onde ela vem. E, pasmem, a intuição não é um superpoder que vem do além. Ela, na maioria dos casos, nasce de uma combinação mental de DADOS e VIVÊNCIAS que uma pessoa inteligente já teve e que, cruzados e alinhados pelo cérebro, impelem alguém a tomar uma determinada decisão, aparentemente sem suporte de dados, mas na realidade com forte apoio deles. Estimular o estudo e a busca de dados científicos nunca fez mal a ninguém e aperfeiçoa o equilíbrio necessário entre intuição e razão. O resto é papo furado dos sabichões. O melhor lugar para eles? Nos nossos concorrentes!

Paulo Ricardo Mubarack