Falar a verdade, mentir ou omitir, eis a questão!

02/09/2011

Falar a verdade, mentir ou omitir é um dilema verde-amarelo. Somos ensinados desde a infância que denunciar fraudes ou atos ilícitos como não cumprir um procedimento da empresa é feio e caracteriza bajuladores e dedo-duros. Usamos a lógica dos presídios, onde denunciar é o crime, em uma inversão espetacular da lógica do bem e do mal. Denunciar fraudadores e incompetentes é correto, omitir ou mentir é crime. E estamos conversados!

Você não é bem visto quando fala determinadas verdades! A sociedade brasileira e o mundo corporativo nacional ainda se sentem bem mais confortáveis diante da mentira e da omissão do que diante da verdade nua e crua.

Não há exagero, é bem assim! Por exemplo, se alguém que você conhece e que confia em você contratar um gestor que você sabe que é muito ruim e perguntar sua opinião, o que você faz? Você fala a verdade (o cara ruim já está contratado), você mente (diz que o cara é bom ou razoável) ou você omite (faz cara de paisagem e muda de assunto)? Todos dirão que vão falar a verdade, a maioria mentirá ou omitirá e uns poucos realmente falarão a verdade. Por que? Porque, especialmente no Brasil, somos treinados desde pequenos a não denunciar o ilícito.

Imagine a seguinte situação, típica nas nossas escolas: uma prova de matemática está sendo aplicada e um aluno vê seus colegas colando. Ele ergue o braço e denuncia a fraude para a professora. Inimaginável, não é mesmo? Se algum maluco fizesse isto, seria esfolado na saída da escola e, no mínimo, seria excluído do convívio da galera e repudiado por todos os colegas, sendo chamado de puxa-saco ou dedo-duro! Talvez o próprio professor repudiasse a denúncia. O denunciante, pobre coitado, aprenderia provavelmente “a lição” e jamais voltaria a denunciar algum ato ilícito. É exatamente assim a vida no mundo dos negócios. Quem sabe sobre fraudes, pequenos atos ilícitos ou simplesmente conhece a baixa competência de outros, normalmente se cala ou mente. O resultado é simples: situações extremamente prejudiciais aos interesses das empresas se amontoam durante muito tempo sem solução.

Vejo com frequência profissionais mentindo para seus chefes, números de indicadores e do demonstrativo de resultados sendo manipulados, estoques sendo intencionalmente mal contados, balancetes sendo ajeitados, padrões não sendo cumpridos, equipamentos de proteção individual não sendo utilizados, mentiras sendo ditas para esconder os verdadeiros interesses de alguns, pessoas ruins sendo encobertas ou por covardia ou por algum interesse inconfessável e assim por diante.

Ainda muito jovem, participei de uma missão a outro país para, junto com um time da minha empresa, decidir sobre um investimento de 10 milhões de dólares. Este dinheiro seria usado para contratar serviços de TI e comprar um software para gerenciar todo o sistema produtivo da companhia onde eu trabalhava. Eu fui encarregado pelo superintendente da empresa para fazer o relatório final. Eu era uma espécie de relator, que teria mais peso na decisão final. Um dos analistas sênior da organização sentou ao meu lado no avião durante a viagem de retorno e perguntou qual seria minha opinião, se a favor ou contra o contrato. Eu disse que poderíamos (como realmente fizemos) elaborar tudo o que precisávamos em casa e que não deveríamos contratar os estrangeiros e gastar 10 milhões de dólares. Aí ele disse: “Tá louco, Mubarack? Já pensou quantas viagens para o exterior faríamos se fechássemos o contrato? Que bagagem internacional ganharíamos? Que experiência pessoal incrível seria esta? Já pensou como nosso currículo vai crescer?”. Mandei-o sair da minha frente e avisei que contaria tudo o que ele disse na minha volta.
Assim foi e obtive dois resultados, um bom e outro ruim. A parte boa foi a aceitação da minha tese e uma economia razoável para a companhia. A parte ruim foi a não punição do analista “corrupto”. Talvez a própria direção tenha achado que foi um exagero da minha parte denunciar a conversa mesquinha do outro profissional. Tenho certeza de que se o dono tivesse ouvido, ele demitiria o infrator. O dono, porém, era inacessível...

Frequentemente, quando ministro curso ou faço palestras, tenho que ensinar ou relembrar meus ouvintes de que denunciar atos ilícitos é correto e que quem denuncia está fazendo o bem. Parece um absurdo me expressar desta forma, mas estamos muito habituados a esconder, ocultar, omitir, mentir e fazemos tudo isto sem culpa ou remorso... Denúncias melhoram o ambiente de trabalho, evitam acidentes nas fábricas, impedem que maus profissionais evoluam e devastem os caminhos por onde passam e promovem quem realmente merece ser promovido. Falar a verdade e denunciar ilícitos é o correto e omitir e mentir é crime, simples assim!