Oitenta horas

02/05/2012

Os fora de série aliaram genética (talento natural) à educação familiar e escolar e ao ambiente onde nasceram e cresceram. Para formar profissionais fora de série (ou, ao menos, ótimos profissionais), é necessário, além do talento e da formação acadêmica, criar ambiente propício para que eles floresçam e oferecer treinamento e muita, muita repetição. 10 mil horas são necessárias para formarmos um perito e 80 horas é o mínimo para o treinamento inicial. Longe da realidade das nossas empresas, esta ausência de ambiente propício e de horas adequadas de treinamento representam fator fundamental de perdas e danos irreparáveis ao caixa.

No livro FORA DE SÉRIE (OUTLIERS), de Malcolm Gladwell, aprende-se que pessoas consideradas como fenômenos, como Bill Gates, The Beatles, Mozart, Steve Jobs e tantos outros outliers aliaram aos méritos individuais uma série de condições externas que resultaram em carreiras brilhantes. Isto significa que para entender um fora de série não basta querer saber como ele é, mas é preciso entender de onde esta pessoa veio, quando nasceu e o ambiente onde se criou.
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A genética (o nosso legado hereditário), a educação que tivemos dos pais e na escola, o ambiente onde crescemos, somados às oportunidades que tivemos e ao nosso esforço pessoal, tudo isto explica o sucesso ou o fracasso. O sucesso, portanto, vem de um acúmulo de vantagens e não somente ao fator estritamente pessoal. .
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Bill Gates, The Beatles e os outros outliers estudados misturaram todos os fatores citados no parágrafo anterior. Tiveram golpes de sorte aliados ao esforço e ao talento natural. E um ponto comum a todos os outliers: muita repetição. The Beatles, antes da fama, chegavam a tocar 10 horas por dia, sete dias por semana nos bares de Hamburgo. Gates e Jobs passavam dias e noites a fio em centros de computação, praticando. E Mozart, antes dos primeiros sucessos, praticou mais de 10 mil horas. Aliás, este parece ser um número mágico: aceita-se que alguém torna-se um perito no que faz após 10 mil horas de exercícios e de repetição. Por que Pelé surgiu no Brasil? Porque, além do talento natural, ele nasceu em um ambiente em que as maiores rádios do país falam de futebol pelo menos durante 8 horas por dia e onde se joga futebol em cada esquina. .
As pessoas não se tornam bem-sucedidas sozinhas. Há outliers, sim, mas não pelos motivos que pensamos normalmente. .
Escrevo sobre este assunto porque nossas empresas falham rotundamente quando não criam ambientes propícios para o desenvolvimento dos fora de série. Nem é necessário que surjam os fora de série. Basta que o ambiente corporativo favoreça o aparecimento de profissionais ótimos e comprometidos. No ambiente corporativo deve-se falar fanaticamente em gestão, muitos treinamentos devem ser ministrados e o negócio, os resultados e os planos de ação devem ser discutidos animadamente. Conheço várias empresas assim e todas elas estão ricas. Pessoas boas adoram este ambiente e ficam, pessoas preguiçosas e descomprometidas odeiam este ambiente e vão embora. .
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O Gerdau sempre foi um exemplo de ambiente propício ao desenvolvimento. Após sair do Grupo, em 1997, encontrei ex-colegas em outros ambientes de trabalho e o rendimento deles era muito menor do que no Gerdau. O que mudou? Parece que o ambiente influenciava muito o desempenho deles. .
Conversei com um cliente muito inteligente sobre o assunto e perguntei-lhe quantas horas ele julgava necessárias para que uma pessoa executasse minimamente bem sua tarefa. Chegamos à conclusão que oitenta horas é uma boa média. .
Logicamente, a quantidade de horas depende da complexidade da tarefa, mas estou falando em um número médio de horas para tarefas medianamente complexas. 80 horas de treinamento parece ser uma utopia, mas é fundamental. Se para formar um expert, você precisa de 10 mil horas, para treinar o básico, você precisa pelo menos de 80 horas. É o mínimo necessário para a garantia da qualidade. .
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Paulo Ricardo Mubarack