Os fantasmas

Tenho convivido com empresários há quase 30 anos. Meu pai foi um empresário e eu sou um empresário há 11 anos. Especialmente nestes 11 anos de consultoria, compartilho da intimidade de muitos acionistas. Além disto, também tenho em meus contatos diários a convivência com excelentes executivos e gerentes.

Quando falo com eles, especialmente com os donos de empresa, vejo como 99 % dos consultores, professores, escritores e “gurus” de administração estão longe da realidade empresarial. Vejo como os cursos de administração e os MBAs estão também distantes da vida real das organizações.

Não é de admirar que muitos empresários simplesmente desprezem tudo isto. Dou inteira razão para eles!

Observem um trecho de mensagem que recebi de um leitor, provavelmente aluno de algum tipo de curso em gestão:

Olá, Mubarack.

Segundo estudiosos da área de gestão, a linha empreendedora vai dominar o Brasil, via SEBRAE. E o SEBRAE defende o plano de negócios e plano de marketing. Observadores dizem que o planejamento estratégico está com os dias contados e morrendo na praia. Isso foi muito legal discutir em sala.

Para o próximo encontro, fica a sugestão, uma pequena análise sobre essa visão, da linha empreendedora versus a do planejamento”.

E o leitor pede meus comentários sobre a batalha plano de negócios x planejamento estratégico ou linha empreendedora x não sei o que”.

Recebi este email em um domingo. Foi mais uma consulta sobre estes dilemas entre centenas nos últimos 11 anos.

À noite, dei aula de matemática para minha filha que está na 2ª série do ensino médio. O assunto era Números Complexos. Nem o professor nem o livro explicaram claramente o sentido físico de um número complexo. Apenas citam o i = raiz quadrada de -1 como um número imaginário. Todos nós fomos ensinados assim. Imagine na cabeça de um adolescente a expressão “número imaginário”! Que viagem, né?

O ápice do estudo dos números complexos foi quando o texto preparado pelo professor ensinava o conjugado do número complexo. Dizia o texto: ...seja um número complexo a + bi, o conjugado deste número é a bi. Perguntei para minha filha se ela tinha entendido o que era um número conjugado. Ela, que sempre tira 10 em matemática, disse que sim. Que horror, não é mesmo? Ela não entendeu nada e acha que entendeu tudo. O professor acha que explicou tudo e não explicou nada.

Meus caros leitores devem estar se perguntando o que há em comum nas duas situações. TUDO! Isto mesmo, tudo! Business plan, planos estratégicos e números complexos conjugados SÃO FANTASMAS. Minha filha nunca viu um número complexo conjugado. Ver significa entender o sentido físico e a utilização prática deste “negócio”, seja lá o que for! E muitos alunos de administração, de MBAs, diretores e empresários nunca viram um business plan, plano de negócios ou seja lá o que for isto!

Mas todos ouviram falar sobre estes temas. Assim como ouvimos falar sobre FANTASMAS, mas nunca os vimos. Eles apenas nos assustam. Assombram nossos pensamentos e perturbam nosso sono. Da mesma forma, planos de negócios, empreendedorismo x planejamento estratégico, business plan e números complexos conjugados apenas ASSOMBRAM os corações e as mentes de empresários, executivos e estudantes.

Lamentável! Profundamente lamentável! As ciências, mesmo a matemática e a administração, são simples na essência e encerram uma lógica profunda! Quem fala em business plan x empreendedorismo x planejamento estratégico x planos de negócio x seja lá o que for deve MOSTRAR exemplos práticos e deve compreender que estas diferenças ou rivalidades são FALSOS DILEMAS, assim como são falsos OS FANTASMAS. A verdadeira sabedoria é simples. Quem conhece realmente um assunto, SIMPLIFICA. E tanto na matemática quanto no mundo dos negócios, o que não tem sentido prático, NÃO SERVE.

Enquanto pseudo-observadores da administração criam seus fantasmas para assustar pobres mortais, empresários dão as costas para estas baboseiras e tocam suas empresas, fazendo planos de vendas, planos de despesas e projeções financeiras. Analisam mercados, concorrentes, produtos novos e fornecedores. Identificam pontos fortes e fracos de suas organizações. Elaboram proteções contra ameaças e buscam oportunidades. E por aí vão. E não se importam se os “observadores”chamam a isto de planejamento, business plan ou números complexos conjugados.

Talvez estes FANTASMAS PODERIAM ATÉ SER ENREDO DE UMA ESCOLA DE SAMBA, DO TIPO: “ALGUÉM VIU UM PLANO DE NEGÓCIOS POR AÍ, GENTE?!”.

Um abraço a todos!!!