Para que servem as auditorias?

07/04/2011

Como e por que craques da auditoria, auditores profissionais com muita experiência e que trabalham para multinacionais, deixam passar verdadeiros “frangos em uma final de campeonato”? As auditorias que realmente protejem uma empresa de fraudes e desperdícios são as auditorias internas. Implantar o controle interno poupa muito dinheiro e dores de cabeça. Infelizmente esta verdade é desconhecida da maioria das organizações.

Afinal, para que servem as auditorias? A revista EXAME, em matéria recente, além do título bastante esclarecedor, escreve: “A fraude no balanço do Banco Nacional deflagra o inferno astral dos auditores”. No texto questiona-se como e por que craques da auditoria, auditores profissionais com muita experiência e que trabalham para multinacionais, deixam passar verdadeiros “frangos em uma final de campeonato”. A defesa das empresas especializadas em auditoria é a amostragem (toda auditoria é executada sobre uma amostra, não é possível enxergar o universo inteiro) e a ocultação das evidências pelos seus clientes.

O problema não se resume a empresas que queiram fraudar balanços. Este assunto não me interessa neste texto. Também não desejo discutir a competência dos profissionais e das empresas de auditoria. Ambos estão sendo questionados quando falham e a crítica é um ônus a que todos estamos submetidos. O que desejo discutir é a fraude interna, onde proprietários e acionistas podem ser lesados pelas suas equipes, fornecedores ou clientes. A realidade é que somente o controle interno de uma organização consegue detectar procedimentos de risco e fraudes com mais intensidade e precisão. O problema é que a maioria das empresas não tem controle interno e muitas talvez nem entendam o que significa isto.

Ter controle interno implica em:

1.Ter os processos estabelecidos, documentados e atualizados;

2.Ter procedimentos estabelecidos, documentados e atualizados;

3.Ter registros estabelecidos e mantidos;
4.Ter controle de toda a documentação citada nos itens 1, 2 e 3;

5.Ter uma área de RH que use tecnologia para identificar possíveis tendências para a fraude em profissionais que lidam diretamente com dinheiro, com clientes e com fornecedores.

6.Ter um processo de inteligência que investigue sistematicamente, por exemplo, o relacionamento entre compradores e outros executivos que definam aquisições de bens e de serviços com seus fornecedores;

7.Ter um canal de denúncias sem identificação do denunciante;

8.Ter avaliação extremamente criteriosa do retorno sobre os investimentos. Um executivo que deseje privilegiar fornecedores em um projeto pode mentir sobre o retorno deste investimento. Como checar o cumprimento das promessas que induzem acionistas e conselheiros a aprovar determinados projetos?

9.Ter um processo de gestão de contratos bem desenhado e executado. A maioria das empresas que conheço e que já conheci não possui este processo sequer definido.

10.Ter um grupo interno de auditores em tempo integral que auditem tudo todo o tempo.

Evidentemente, a estrutura de auditoria interna deve ser proporcional ao tamanho de cada empresa, podendo, em organizações pequenas, ser terceirizada.

É importante também entender que uma auditoria contábil, mesmo completa e bem executada, não tem a habilidade suficiente para verificar muitas questões, como a citada no item 5 – tecnologia de RH para selecionar somente pessoas honestas – ou outras questões da gestão e que nunca aparecerão em demonstrativos financeiros ou contábeis. Obviamente, é excelente o ambiente onde predomina a confiança, mas é dever (e não apenas direito) de um empresário ou de um conselho não confiar a ponto de relaxar o controle interno, que também é útil para a proteção dos próprios funcionários. Imagine-se uma empresa onde aconteça um roubo e onde o controle interno é fraco ou inexistente! Todos serão suspeitos e algumas injustiças poderão ser cometidas. Quase tudo em uma empresa significa dinheiro e com dinheiro não se brinca. Nenhum executivo é pago para ser ingênuo.

Alguns “humanistas” de plantão acharão que prego implantar o terror e a desconfiança em uma empresa. Engano tolo! Controle interno rígido e auditoria nunca assustaram profissionais honestos e competentes. Ao contrário, este perfil sente-se bem sendo auditado, porque a função do controle interno não é somente descobrir fraudes, mas é também identificar fragilidades na gestão, a maioria cometida de boa fé. Para os bons, controle interno significa ajuda. O perfil dos profissionais que executarão esta função deve incluir matérias como finanças, contabilidade e recursos humanos, isto é, gestão. Não estamos tratando apenas de registros contábeis ou financeiros, mas de gestão. É um erro economizar alguns tostões ao não se estruturar esta função e ter prejuízo de milhões. Infelizmente, o mundo dos negócios está repleto de exemplos deste erro.

Paulo Ricardo Mubarack