Por nenhum dinheiro do mundo...

17/03/2011

Prezados clientes e amigos, nenhum dinheiro do mundo é capaz de despertar nos profissionais de uma empresa o chamado INTERESSE GENUÍNO pela MISSÃO da companhia. Apenas pessoas certas têm naturalmente este INTERESSE, que vai além da relação comercial. Ele mistura positivamente vida privada e profissional e representa elemento incopiável e exclusivo para a diferenciação de uma organização junto aos clientes.

“O que salva um povo, uma empresa ou uma pessoa é TER MUITOS FUNDAMENTOS E POUCAS OPÇÕES”. Esta foi uma das declarações mais inteligentes que já ouvi. Um diretor, meu cliente, proferiu-na em um curso ministrado por mim na sua empresa. Dar poucas opções e muitos fundamentos. Isto mesmo, poucas opções! Quem tem poucos fundamentos e muitas opções, faz bobagens. Muitos fundamentos e poucas opções. Ele disse: "Mubarack, vim da roça para a cidade com muitos fundamentos e valores transmitidos por meu pai e com uma única opção: trabalhar e estudar como um animal. Não havia outra opção".

Lembrei-me de vários astros do futebol e da música com poucos fundamentos familiares e as muitas opções que fortunas de milhões de dólares trazem. Atrapalham-se nos vários casamentos, nas finanças e com as drogas.

Muita gente boa e muitos recursos podem causar um grande estrago em uma empresa se a simplicidade for esquecida. Não podemos permitir que a alta formação intelectual e o tamanho de uma empresa encubram a simplicidade do seu negócio e criem penduricalhos inaceitáveis para suas margens. Só fazer ações que tenham impacto mensurável no negócio. Esquecer o restante. Ter pessoal com alta formação intelectual e muito dinheiro é bom, mas é perigoso se não houver simplicidade. Alta formação e muito caixa geram muitas opções. Se não houver fundamentos gerenciais e valores, investimentos absurdos poderão ser aprovados.

É abundante no mercado a oferta de tecnologia em gestão. Milhares de livros, softwares e consultorias que podem implantar rapidamente em qualquer organização métodos e ferramentas variadas para ajudar no gerenciamento. Entretanto, são também inúmeros os relatos de sistemas mal implementados, softwares de gestão que trazem dores de cabeça para quem os compra e fracassos nos projetos de implantação. Qual é a principal causa? Sem dúvida alguma, a ausência da IDEOLOGIA dos fundadores. Ideologia significa o conjunto de ideias que move o comportamento das pessoas em uma empresa. Afinal de contas, os métodos, as ferramentas e os softwares somente serão aproveitados se houver pessoas dispostas a fazer o trabalho. Estas pessoas não são quaisquer pessoas. São aquelas alinhadas com o pensamento dos fundadores da empresa, são aquelas que guardam extrema lealdade para com suas companhias, são aquelas que vivem diariamente nas suas vidas profissionais e pessoais os mesmos valores que os fundadores das empresas para as quais trabalham. Tudo o que se precisa é recrutar e selecionar estas pessoas, treiná-las, dar-lhes autonomia e elas saberão o que fazer. Mas como encontrá-las? Como encontrar as pessoas certas para a ideologia da companhia? A resposta está nos valores. Pessoas certas são aquelas aderentes aos valores da empresa. É preciso, portanto, antes de tudo, definir os valores.

No início da vida de uma organização talvez os fundadores ainda não tenham esta preocupação, pois estão mergulhados nas tarefas diárias da sobrevivência. Guiam-se pela intuição. Selecionam pessoas obedecendo à intuição. Porém, quando uma empresa cresce, a lógica deve juntar-se à intuição. É preciso garantir que um número cada vez maior de pessoas, em locais e países diferentes, continue rigorosamente fiel aos valores que garantiram a sobrevivência e agora vão assegurar a sustentabilidade do crescimento. É preciso comunicar estes valores através de todas as mídias disponíveis. A margem para o erro é muito pequena e os acionistas, os clientes e a comunidade podem não perdoá-lo!

Voltando à pergunta inicial sobre o porquê de tantos fracassos nas implantações dos sistemas de gestão, a maioria das empresas que conheço não define claramente seus conjuntos de valores. Se não os define, obviamente não os comunica. Se não há clareza na comunicação e na definição, como selecionar as pessoas certas? E se não existem as pessoas certas, como ter sucesso, já que elas são o pré-requisito fundamental?

Empresas do varejo não conseguem, muitas vezes, convencer seus vendedores a sorrir para vender mais e ganhar comissão, mas organizações terroristas conseguem convencer uma pessoa a entregar sua vida por uma causa. Qual é a explicação? Quem convenceu o terrorista tinha uma ideologia, selecionou as pessoas certas e comunicou esta ideologia. Quem não consegue convencer o balconista não tem a ideologia, portanto não seleciona as pessoas certas e não comunica nada. Certa vez, alguém observando Madre Tereza cuidando de leprosos, disse: “Eu não faria este trabalho por dinheiro algum do mundo.” E Madre Tereza respondeu: “Nem eu!”.

Há algo mais do que o simples interesse comercial. Este algo mais significa o INTERESSE GENUÍNO de uma pessoa pela Missão de sua empresa. Somente este interesse origina clientes satisfeitos e garante não apenas a sobrevivência e o crescimento de uma empresa, mas assegura sua PERPETUIDADE. As ausências da declaração escrita da ideologia de uma companhia em detalhes e a comunicação falada, didática e sistemática, em muitas e muitas organizações é a principal causa do fracasso da gestão. Existem ferramentas, existem softwares, existem métodos e consultorias, existe, portanto, O CORPO, mas NÃO EXISTE A ALMA. Os valores representam a alma de qualquer organização. Todas as empresas querem sobreviver e crescer, mas poucas desejam PERPETUAÇÃO. Para perpetuar, valores e ALMA são essenciais.

Empresa sem alma é semelhante a um bando confuso de mercenários, isto é, gente trabalhando apenas por dinheiro, com objetivos rigorosamente individuais e sem preocupação com o alinhamento. Sempre é importante lembrar que alinhamento significa o somatório de forças que obtém o máximo resultado. Qualquer desalinhamento faz com que a força resultante seja menor.

Só há uma forma de manter unificada uma empresa em crescimento: é com os valores.

OS VALORES

O presidente e principal acionista de uma empresa brasileira de médio porte perguntou-me sobre o que deveria fazer com um gerente que apresenta resultados excelentes, bate todas as metas, mas tem mau comportamento, é arrogante com os colegas, não age com transparência e se julga alguém muito especial. Revela total descrédito com os valores da empresa. “Demita-o!”, foi minha resposta. “E explique a todos o motivo da demissão. Não invente desculpas, apenas diga a verdade. Ele foi demitido, porque não correspondeu ao comportamento esperado pela organização”. Muito rigor? Não, apenas coerência com os valores da empresa. Normalmente, diz-se que a missão, a visão e os valores de uma companhia definem a identidade da organização. E, deste trio, os valores representam a parte menos sujeita a mudanças. A direção pode mudar a visão, pode até mesmo alterar a missão, mas os valores são a imagem do comportamento e dos ideais dos fundadores da empresa. Como violá-los impunemente? Como atropelá-los em nome dos resultados?

Os fundadores certamente sempre acreditaram que os resultados viriam justamente da observância destes valores. E a equipe? Se a empresa mantiver o gerente com mau comportamento, passará mensagem extremamente negativa para a equipe. Praticamente estará afirmando que os Valores não valem! As melhores empresas que conheço têm o discurso da diretoria muito próximo da prática. Então, eu disse ao empresário: “Não hesite. Demita o infrator dos seus valores e você se surpreenderá com o ânimo que esta decisão injetará no restante de sua equipe”.

O VALOR DOS VALORES

O trabalho pedagógico necessário à divulgação dos valores entre os funcionários muitas vezes é negligenciado. A direção não consegue entender “o valor dos valores”, embora tenha definido todos eles. O significado das palavras que expressam os valores não é discutido, tampouco entendido. Afinal de contas, para que servem os valores?

Valores são comportamentos esperados pela direção da empresa. Os procedimentos operacionais e gerenciais, o controle definido no sistema informatizado, o processo de compras e de vendas, o “jeitão” da organização, seu posicionamento perante o mercado (clientes, concorrentes, fornecedores, governo), tudo depende e está subordinado aos valores. Eles representam o CARÁTER da empresa. Empresas sem valores são empresas sem cultura, sem caráter próprio, sem tradição. São massas amorfas, difíceis de identificar.

O código de ética e de posturas de uma empresa deve ser escrito a partir da “Tábua de Valores”. O comprador ou qualquer outro funcionário pode receber presentes de fornecedores? O que se faz quando alguém mente? Quando um funcionário briga com o cliente, qual é o procedimento? O que não é tolerado em hipótese alguma? O que pode e o que não pode ser falado, a confidencialidade, o comprometimento esperado? Os valores representam os requisitos inegociáveis para admitir alguém. Como não tê-los e como não divulgá-los permanentemente?

Quem deve divulgá-los? RH é a resposta. Os profissionais desta área devem ter algo parecido com a disposição de um padre. Catequizar, “fazer a cabeça”, “lavar o cérebro da equipe”, evidentemente no melhor dos sentidos, é o que se espera.

Valores são referências, são premissas. Presenciei um ótimo exemplo: o diretor de uma empresa que tem como um de seus valores a “confiança” solicitou que a prestação de contas de viagens fosse simplificada. Alguém rebateu, afirmando que algumas despesas ficariam a critério dos funcionários, sem a necessidade de notas fiscais. O diretor emitiu o argumento final: “Confiança não é um dos nossos valores? Se é, exijo a simplificação. Se vocês acham perigoso simplificar, então retiro a palavra confiança dos nossos valores. Aceito qualquer uma das duas situações, mas não as duas ao mesmo tempo. Preciso de coerência”.