Sem dono

08/12/2011

Três empresas e um erro clássico: crescer sem estrutura em gestão, crescer trazendo gente de fora e perder o espírito de DONO. O acerto clássico: desenvolver pessoas internamente e crescer com suas próprias forças. Para isto, exige-se PACIÊNCIA DE DONO. Somente quem é dono tem este fôlego. Somente este tipo de empresa torna-se uma grande empresa. As outras podem se tornar empresas grandes, enriquecer alguns, mas jamais serão grandes empresas. Analise as diferenças e tome sua decisão: quem você quer ser?

Na EXAME de 30/11/11, há três reportagens que guardam um ponto em comum muito estreito: a falta, parcial ou total, do espírito de DONO. Vamos para um resumo das reportagens:

1 – A CYRELA decidiu acabar com suas parcerias fora de S. Paulo e cuidar internamente das suas obras. Estouros no orçamento de algumas obras, relatos de roubos de materiais, redução dos lucros e falta de padrão para a análise dos dados de produtividade e de outros indicadores. Aí eu pergunto: como uma empresa deste porte, antes de realizar um IPO e crescer com parcerias, não criou um simples padrão de indicadores? O que explica que empreendedores deste porte cometam um erro tão primário? Já prestei consultoria para mais de uma centena de empresas, a maioria com receitas anuais acima de 200 milhões e conheço a dificuldade das diretorias e dos gestores em geral em entender o que é um sistema integrado de gestão, que contempla padrões em todas as áreas, inclusive nos indicadores de desempenho.

2 – A KODAK foi extremamente lenta nos últimos vinte (eu disse: vinte!) anos e transformou-se de uma companhia que valia 8,6 bilhões de dólares em 2005 para uma empresa que vale em 2011 300 milhões de dólares. Para continuar respirando, pretende vender mais de 1000 patentes que valem cerca de 2 bilhões de dólares, quantia ainda insuficiente para manter viva a outrora poderosa KODAK, que chegou a ser dona de 90 % do mercado americano de filmes e câmeras analógicas.

3 – A QUERO-QUERO, rede gaúcha que atua no varejo de eletrodomésticos, material para construção civil e móveis, foi comprada em 2008 pelo fundo de private equity americano Advent. Conseguiu crescer, desde então, apenas 33 % até 2011, quando a média do seu mercado cresceu mais de 60 %. Até 2008, a QUERO-QUERO crescia, nos últimos anos, em um ritmo de 30 % ao ano. Algumas medidas tomadas pelo fundo ao assumir a empresa explicam, pelo menos parcialmente, os péssimos resultados: transferir a sede da pequena cidade gaúcha de Santo Cristo para Porto Alegre, perdendo cerca de 100 funcionários entre 200, alguns de áreas muito sensíveis, como TI e Comercial; troca rápida de presidentes (um deles ficou apenas seis meses no cargo e demissões de diretores. Um executivo próximo ao fundo relata: “A QUERO-QUERO ficou 18 meses praticamente parada.”.
Erros CLÁSSICOS, eu complementaria. Erros clássicos de empresas que pelo seu gigantismo (KODAK), pela pressa em crescer sem estrutura de gestão (CYRELA), e pela destruição de equipes e contratação de “estrangeiros” (QUERO-QUERO), tornaram-se indefinidas, sem identidade, sem gana e sem DONO. O que é um erro clássico? É aquele que se repete, que todos conhecem, mas que a maioria ignora no momento das decisões. Não cometa estes erros na sua empresa, seja você proprietário, acionista ou gestor profissional. Não traga gente de fora, desenvolva seus líderes, evite sócios que vão “alavancar” seu negócio, cresça com suas próprias forças, tenha paciência de “dono”. Somente donos têm fôlego para fazer tudo isto. Cuidam das suas empresas como cuidariam de seus filhos. Os profissionais “de fora”, os alavancadores, estes olham para sua empresa apenas como uma fonte temporária de lucro.
Se não tiver mais fôlego, venda tudo e caia fora. Não fique “pela metade”. Você só vai sofrer. Para os gestores profissionais, procurem emprego apenas em empresas cuidadas como filhos. São as melhores para se trabalhar e progredir.