Um pouco mais de alma

21/03/2012

Um cidadão apático e desinteressado opera sua máquina em uma indústria e olha o relógio de 15 em 15 minutos. O tempo não passa. Seu chefe conversa pouco com ele, nunca recebeu treinamento sobre os valores e a cultura da companhia e ninguém delega nada para ele. Sente-se um elemento fora do sistema e não sente qualquer orgulho em trabalhar na organização. Quando chega a noite ou o final de semana, este cidadão indiferente e pouco comprometido com o trabalho transforma-se em um leão na quadra de futebol e em um fiel ardoroso e comprometido na igreja. Como explicar este “fenômeno”?

Tive a oportunidade de assistir em uma indústria japonesa, situada a 100 km de Tóquio, a uma cerimônia muito simples e rápida de admissão de jovens engenheiros na organização. Fomos para um pequeno auditório onde havia cerca de 100 pessoas, divididas em três grupos: o grupo dos jovens que estavam começando seu primeiro dia na empresa, outro grupo formado pelos pais destes jovens e o terceiro grupo formado pela diretoria e outros executivos da companhia. Cada grupo tinha um representante que falou para todos durante três minutos. O primeiro a falar foi o representante da empresa, seu presidente, que se dirigiu especialmente aos pais, prometendo que a empresa cuidaria dos seus filhos desenvolvendo-os como profissionais e como cidadãos, em um ambiente saudável e seguro. O segundo grupo que se manifestou foi o dos pais, onde o pai de um dos jovens garantiu para a empresa que seus filhos honrariam, com seu trabalho, o nome de suas famílias. O último grupo foi o dos jovens, onde seu representante disse que, diante dos seus pais e dos seus patrões, eles, os jovens, prometiam força e honra no trabalho e que jamais desapontariam suas famílias, a empresa e o Japão.

Sinto até hoje, passadas quase duas décadas, um arrepio ao lembrar esta cena. Um compromisso de honra estava selado entre a empresa, as famílias e os jovens engenheiros. Vejo muitas teses sobre como comprometer as pessoas, envolvendo-as mais no trabalho. Esta empresa japonesa dispensou teses sofisticadas e foi simples e direta.

Um pouco mais de alma é o que precisamos em nossas empresas. Eu sei que a cena descrita pode parecer impossível, brega ou até cômica para muitos gestores brasileiros. Somos um povo que ri de tudo (até de nossas desgraças), fazemos piadas com coisas sérias e parece que nunca nos comprometemos com “o sangue”. Mas não é verdade. Por que nossos funcionários, quando saem da empresa após um dia aparentemente monótono onde as horas se arrastaram, vão para suas igrejas ou para um mero jogo de futebol e se mostram cheios de energia e de comprometimento? Aquele sujeito apático da empresa transforma-se em um leão no joguinho da esquina ou um fiel fervoroso na igreja, comprometido e engajado. O cidadão é o mesmo, o que mudou foi o ambiente. No futebol e na igreja, ele até paga, não leva nada concreto nas mãos, arrisca no futebol sua integridade física e na igreja dá o tempo que afirmava não ter na empresa. A diferença é que ele sente paixão e fé pelo futebol e pela igreja e na sua empresa ninguém trabalha com isto. Um RH previsível e indiferente e um grupo entediante de chefias tornam o ambiente “um saco”.

Nossas empresas precisam aprender a colocar “um pouco mais de alma” no trabalho, fazer seminários sobre os valores da empresa, contar fatos sobre os heróis da companhia, despertar o orgulho de nela trabalhar e falar, falar e falar constantemente com cada funcionário, fazê-lo sentir-se parte do sistema e dar-lhe responsabilidades e trabalho. As pessoas gostam de responsabilidades e de trabalho. Aqueles que não gostarem, você demite. Muitos chefes são altamente centralizadores e não conseguem realizar avaliações de desempenho bimestrais com seus funcionários, criando planos para desenvolvê-los e dando-lhes feedbacks constantes.

Delegar muito, conversar muito, treinar muito, avaliar muito. Mais alma, por favor. Mais simbolismos, por favor. Menos teoria burra que fala em capital humano, gestão do conhecimento e autogerenciamento e mais prática tratando os subordinados como pessoas, isto é, delegando e conversando, orientando e corrigindo.