A realidade não interessa

11/06/2013

Quando um dirigente não gasta sola de sapato, não audita sua própria empresa e apenas lê relatórios e fala com outros que também adoram uma poltrona, a probabilidade de tomar boas decisões torna-se praticamente nula. O pré-requisito para uma boa decisão não é a mágica “intuição”, mas a análise baseada em fatos e dados coletados na crueza das ruas, onde ninguém conhece o presidente nem o diretor, ou seja, onde está a verdade sem maquiagens.

Todo presidente e todos os diretores de qualquer empresa deveriam, a cada seis meses, colocar um disfarce e auditar suas organizações. Tentar comprar, tentar vender, perambular pela administração, ouvir as conversas de corredor e de banheiro, ir ao RH como um simples operador etc. Nunca vi dirigentes fazendo isto (nem mesmo a maioria dos gerentes), mas tenho certeza que eles não seriam mais os mesmos após a primeira visita. Eles iriam além das salas e dos relatórios. Eles receberiam informações muito mais ricas do que uma equipe treinada para maquiar hoje lhes fornece. Eles enxergariam suas empresas de fora para dentro, de baixo para cima e não apenas de cima para baixo, como sempre fizeram.

Você, que é dirigente, precisa se convencer que um excelente ourives olha o diamante por todas as posições possíveis, por dentro, por fora, e testa os atributos da pedra com muito rigor, para saber o quanto realmente ela é preciosa.

Como quase ninguém chega nem perto disto, a conclusão é simples: a realidade não interessa e o resultado é um conjunto de decisões dignas de um idiota.

Não há qualquer possibilidade de que você venha a tomar decisões corretas se você não enfrentar a realidade nua e crua. A vida real não é formada por secretárias solícitas, gerentes que sempre trazem informações rápidas e relatórios bem acabados em Excel ou Power Point. A vida, na maioria dos casos, é feia e dura e você não pode ter medo de fantasmas, você precisa enfrentá-los.

Por que as pequenas empresas crescem, as médias ficam estagnadas e as grandes desmoronam, em muitos casos? Porque a caminhada para o mundo irreal aumenta sua velocidade na mesma proporção em que uma organização cresce e enriquece. O presidente e os principais diretores precisam ter a postura de um vendedor de rua, de um ambulante: total contato com a crueza das calçadas e com os pontos onde o dinheiro está: clientes, fornecedores e concorrentes. Gastar sola de sapato, expressão cunhada e consagrada pela cultura vencedora da AmBev, nunca foi tão necessário. Por que você não vende? Por que seus clientes se foram? Por que os custos não baixam? Onde o dinheiro está indo? Você nunca vai ter estas respostas com “padrão ouro” sentado à frente de outros que também vivem sentados. Acaso um cego pode guiar outro cego?

Paulo Ricardo Mubarack