Lucro

03/02/2016

Gente motivada pelo lucro faz coisas extraordinárias. Quando o lucro é ameaçado, o mundo torna-se mais feio e perigoso. Vegas, Disney, Facebook, Google, Apple, Microsoft, Samsung, a beleza de Paris, os resorts próximos aos Alpes, arenas fantásticas para o esporte, medicamentos milagrosos, aparelhos sofisticados para salvar vidas, carros, joias, escolas, tudo o que torna a vida das pessoas mais confortável e mais longa, foi feito objetivando o lucro.

Sem ele, dependeríamos de um grupo de anjos. Pessoas altruístas, que empenhariam suas vidas para tornar os semelhantes mais felizes. Eles, os anjos, ainda não foram localizados após milhares de anos de vida na Terra. Na dúvida, procurar o lucro e não os anjos parece ser uma decisão mais sábia.



Um homem entra em um restaurante às 12:30 de uma quarta-feira no centro financeiro de São Paulo. Está com pressa e deseja apenas comer uma folha de alface e beber um copo de água mineral com gás. É atendido com presteza e a única contrariedade acontece no momento da conta, U$ 6,50 (cerca de 26 reais em fevereiro de 2016). Embora os preços estejam no menu, o cliente fica irritado e acha um absurdo tal valor ser cobrado por tão singela refeição. O cardápio prevê este preço para uma salada inteira, mas ele queria comer muito pouco e foi avisado pelo garçom sobre o preço mínimo. Pagou e foi embora jurando nunca mais “retornar a este local de exploradores”.

Este homem precisa de algumas aulas sobre finanças. Ele ignora que, para a alface e o copo de água estarem na sua frente no momento desejado, exatamente no centro financeiro da maior cidade da América Latina, alguém – o dono do restaurante – gastou horas e mais horas debruçado sobre o projeto daquela loja. Contratou arquiteto e engenheiro para elaborar o projeto, aprovou o projeto na prefeitura após um monte de burocratas estatais jogarem com sua paciência, pagou mil taxas e finalmente pode construir. Alugou um terreno, contratou um advogado, um contador e um empreiteiro e fez a obra. Foi ao banco pedir um empréstimo para custear 60% do investimento, novamente entrou no jogo de paciência com a prefeitura para obter o Habite-se, pagou mais taxas e esperou pelo fiscal. Após vencida esta etapa, chegou a vez do Alvará e de mais taxas. Conseguiu finalmente a permissão para trabalhar. Contratou garçons, recepcionista, maitre, cozinheiros, estoquista e uma empresa de TI. Comprou software, máquinas de cartão de crédito, mobília, louças, talheres, instalou ar condicionado e adquiriu seu primeiro estoque de bebidas e de comida. Comprou uma cozinha profissional e decorou o ambiente. Toalhas de mesas, guardanapos, dezenas de itens, energia elétrica, gás e água. Tudo para que alguém com pressa pudesse ter, na hora solicitada, uma salada e água na mesa, servidos por um garçom educado. Este homem acha que os 26 reais vão para o bolso do empresário. Ele ignora todos custos que reduzem os 26 reais para um lucro próximo dos centavos. Ele parece desconhecer também que o lucro é o pagamento devido ao empresário em troca do dinheiro investido, do tempo empregado para bolar e tocar o negócio e principalmente pelo RISCO tomado.

O proprietário do restaurante não organizou este negócio que melhora a vida de tantos clientes porque ama os paulistas. Ele fez porque deseja LUCRO. Por isto, o LUCRO é importante não somente para quem o obtém, mas para todas as pessoas beneficiadas pelos bons produtos oferecidos em seu nome. Na madrugada, enquanto os clientes do meio-dia ainda dormem, o proprietário vai ao mercado comprar legumes e carne fresca para as refeições. Alguém limpa o restaurante, outro cuida da harmonia do ambiente. Cada um trabalha para si, pensando no seu lucro e tornando mais confortável a vida das outras pessoas. Gente motivada pelo lucro faz coisas extraordinárias. Quando esta motivação é ameaçada, o mundo se torna opaco e o convívio humano dirige-se novamente para a barbárie.