Papo de feiticeiro

29/04/2013

Executivos que falam termos como “o mercado está parado”, “o mercado isto ou aquilo”, “ninguém está vendendo” e outras porcarias do gênero mereciam ser demitidos sumariamente. Grandes empresas como AB InBev e Gerdau jamais suportam tais idiotas. Companhias de segunda classe acham bacana este tipo de papo e empregam este tipo de gente. Moral da história: um executivo deve ser PRECISO. Dar nomes, números e dados confiáveis, oriundos de fontes seguras e não falar como um feiticeiro, onde a única magia real é enganar otários.

Em qualquer atividade empresarial, é fundamental a precisão e a personalização. Quando alguém comete um erro ou faz um golaço, é necessário PERSONALIZAR. Nunca, em qualquer hipótese, despersonalize erros ou acertos. “Foi João quem provocou o acidente”, “Foi Pedro quem conseguiu trazer um importante cliente de volta”, esta é a forma correta de falarmos, sem o medo típico das administrações covardes que não querem culpar ninguém ou elogiar quem realmente merece. O nome deste padrão simples e objetivo é MERITOCRACIA. Méritos para quem os têm, punição para quem errou.

Igualmente indispensável é a PRECISÃO. Observo alguns executivos explicando as quedas de vendas e ouço frases do tipo:

“As vendas caíram porque atuou a mão invisível do mercado”.
“As vendas caíram, mas sinto uma energia boa no ambiente”.
“O mercado está andando de lado”.
“Está tudo parado” (referindo-se ao mercado, aos clientes).
“O mercado reagiu mal a esta medida”.
Parece papo de FEITICEIRO. E dos ruins, dos mais picaretas! Nunca permita que se fale do mercado. Peça que os clientes sejam nominados, que as pessoas sejam identificadas. Afinal de contas, o que é o mercado? Eu sei, se me permitem. É uma palavra abstrata, boba, que incompetentes utilizam para esconder sua ignorância.

Outro ponto: não permita a criação de MITOS, prática comum que coloca estigmas (positivos ou negativos) nas pessoas e impedem que a realidade seja vista com clareza. MITOS vêm da falta de precisão no uso de dados e fatos.

Em 1985, eu recém havia iniciado minha vida profissional no Gerdau. Na época, executivos debatiam ferozmente nos corredores se o Grupo (como chamávamos o Gerdau) deveria ou não fazer uma joint-venture com a IBM e criar uma espécie de Data Center, em uma atividade completamente desconhecida para o Gerdau. Os opositores à criação da nova empresa tinham argumentos sólidos fundamentados na ignorância da companhia neste novo negócio. Os apoiadores da ideia usavam um argumento próprio da feitiçaria: “Dr. Jorge tem o toque de Midas. Onde ele toca, vira ouro”. Tanto não tinha o tal toque de Midas que a GSI (Gerdau Serviços de Informática) foi criada em 1986 e morreu 10 anos depois com um prejuízo nunca divulgado, mas estimado em 100 milhões de dólares.

Em uma reunião do Conselho de Administração de uma empresa, referindo-se ao sistema de remuneração variável, um conselheiro afirmou que o método “x” era praticado pela maioria das empresas no mercado. Contestei a afirmação porque ela carecia de números, de dados precisos, de fatos contundentes.

O mais terrível é que muitos executivos induzem acionistas a tomar decisões com base nesta tragédia de falar sem dados e identificação clara das coisas, o que chamo de PAPO DE FEITICEIRO.

Expulse os feiticeiros e trabalhe apenas com gente que utilize números e nomes para explicar o que acontece na rotina da sua empresa. Executivos que mapeiem suas áreas de trabalho, que identifiquem cada palavra cuidadosamente e que não falem utilizando metáforas, frases subjetivas e jargões de boteco.

Paulo Ricardo Mubarack