Pegar leve ou pegar pesado

22/10/2014

Pegar pesado ou pegar leve com funcionários é um sofisma, um falso dilema. Tudo depende do que exatamente o acionista deseja, em qual nível ele quer colocar a régua e qual o perfil adequado para sua empresa. Defina o perfil, selecione gente dentro deste perfil, esqueça a diversidade de perfis, estabeleça a maior homogeneidade possível em seu time e vá em frente. O que não pode acontecer é a confusão. Os valores estão indefinidos, os perfis têm uma faixa muito larga de tolerância e acionista e executivos não sabem mais de que forma gerenciarão as pessoas. Aí, eles afirmam que pessoas são complicadas. [...continua]

Eis um falso dilema apoiado em uma frase subjetiva. O que é, exatamente, pegar leve ou pegar pesado? Não conheço quem possa conceituar claramente estas expressões e elas acabam servindo apenas para criar fantasmas, lendas e preconceitos em uma empresa. O Brasil sempre teve, ao longo de toda história, a participação extremamente forte do Estado na vida das pessoas. Desde o funcionalismo público em número exorbitante até a ajuda governamental para empresas privadas, o Estado sempre foi, e continua sendo, o núcleo da sociedade brasileira. O resultado todos sabemos e a causa é muito simples: quando o Estado extrapola seus deveres e intervém fortemente na economia e em outros aspectos da rotina do seu povo, o protecionismo e o corporativismo crescem e o nível de competição baixa. Somos um país onde ricos e pobres, jovens e idosos, doutores e analfabetos, têm pavor da competição. Quem tem medo da competição, mas precisa obviamente sobreviver, cria mil mecanismos, e quanto mais complexos melhor, para inibir o empreendedorismo, evitar o uso de metas, e reduzir a importância da autoridade e da educação. Para quem odeia a competição, a ordem só atrapalha e trabalho e estudo não são valores para serem desenvolvidos. Na desordem, o incompetente, isto é, o incapaz para competir, justifica a sua posição e se salva. Talvez esta seja a melhor definição de "pegar pesado" e "pegar leve": preparar, ou não, uma equipe para a competição.

“A competição frustra muita gente e a pressão cria um ambiente ruim”. Frases como esta clamam para empresas mais “humanas” e com pessoal mais feliz. Funcionários felizes dão mais resultados, todos sabemos disto. Mas alguém aí do outro lado deste texto, por gentileza, defina "felicidade". O que deixa alguns felizes, deixa outros infelizes. Esta é daquelas verdades incontestáveis. Como, então, deixar os funcionários felizes se cada um deseja algo diferente do outro? Missão impossível? Enchê-los de mimos e benefícios? Ser muito exigente, mas oferecendo muito treinamento e oportunidades de crescimento? Tudo isto junto? Nada disto? Ora, a discussão começa a ficar sem sentido. Para uma empresa ter funcionários felizes (e, portanto, obter grandes resultados), ela deve esquecer todo este falso dilema de "pegar leve ou pesado" e definir claramente o perfil dos acionistas e no que exatamente eles acreditam. Se esta tarefa não for feita com muita qualidade, o processo de seleção será fraco (a empresa selecionará uma miscelânea de perfis) e a função gerencial será dificultada em um nível inaceitável para todos. Ouço de muitos gerentes a seguinte questão: "Não sei mais como conduzir a gestão das minhas pessoas. Ora pego leve demais e tomo porrada do meu chefe, ora pego pesado e também tomo porrada. Não sei como proceder".

A orientação correta? Definir os valores necessários para quem vai trabalhar com você e preparar a exigência de acordo com estes valores. Se um de seus valores for a competição, então o perfil exige gente preparada para aguentar o tranco. Se não for, parta para outros perfis mais leves. Ah, não esqueça de mensurar claramente os resultados que você terá com um e com outro perfil. Não espere resultados competitivos de perfis leves. Faça sua escolha, seja coerente com ela e boa sorte.

Paulo Ricardo Mubarack